Bate-papo com Flávio Wittlin e Cintia Gomes: saúde emocional e dicas

Confira a parte dois da edição extraordinária do Bate-papo Entre Nós. Se informe, #fiqueemcasa, fique seguro e mantenha os outros seguros.

A mudança de rotina, a preocupação com a pandemia coronavírus, o trabalho e o isolamento, juntos, tendem a abalar emocionalmente indivíduos de diferentes idades. Porém, algumas recomendações, e estar aberto a adaptações, podem ser valiosas para quem quer buscar o equilíbrio em meio a pandemia. É o que comenta Flávio Wittlin. “Existem alternativas que devemos explorar. Além daquelas que têm sido divulgadas amplamente na mídia, portais e redes sociais, precisamos ter criatividade para manter conexões que superem a solidão, o desalento e a paralisia social. É hora de se reinventar, dentro do possível”, exortou Wittlin.

Focar no presente e evitar sobrecarga de informações são algumas das orientações de Cintia Gomes para o equilíbrio em momentos de distanciamento social:

– O presente é real. Precisamos estar aqui agora, buscando tranquilidade para agir com assertividade e serenidade. Para chegar até o futuro, precisamos passar pelo hoje da melhor maneira possível. No mais, filtrar informações é importante. O excesso de notícias pode causar ainda mais pânico e confusão. “Escolha um noticiário apenas e assista, nada de excesso de informação! Cuidado com os vídeos e áudios de redes sociais e aplicativos de mensagens, busque fontes confiáveis”.

No entanto, para algumas pessoas, esse período pode ser ainda mais duro e afetar a estabilidade emocional e a saúde mental de maneira mais aguda. “Depressão, ansiedade, síndrome de estresse pós-traumático e outras implicações de ordem mental tendem a aparecer ou acentuar-se naqueles que já sofrem psiquicamente”, comenta Wittlin.

Nesses casos, é possível observar sintomas que dão um sinal de alerta e indicam ser preciso buscar ajuda para si ou para quem está próximo. “Estar em quarentena não é estar isolado digital, emocional e fisicamente (dentro da residência). Uma pessoa quieta, que fica apenas no quarto, se nega a realizar a higiene básica ou a se alimentar (ou tem comido compulsivamente) pode não estar lidando bem com a situação. Irritabilidade, sentimento de abandono e vontade de sumir indicam, da mesma forma, que as emoções estão mais abaladas do que o esperado. Nesses casos, procure ajuda. É possível encontrar diversos psicólogos atendendo online neste momento [desde o ano passado, o Conselho Federal de Psicologia liberou a atuação virtual. O profissional precisa de autorização especial. Por isso, informe-se e cheque a possibilidade deste tipo de atendimento]. Não se cale, fale com amigos e familiares, busque indicações”, instruiu Gomes.

Caso haja necessidade de atendimento médico urgente, a pessoa deve se dirigir às UPAs, unidades de emergência de hospitais do estado ou mesmo acionar o Samu. “Esses órgãos estão aptos a oferecer atendimento primário em saúde mental e poderão orientar a melhor forma de dar continuidade ao tratamento com outros profissionais ou em ambulatórios especializados”, complementou a psicóloga.

Assim como para adultos, é importante manter uma rotina no isolamento principalmente para as crianças e adolescentes a fim de que os impactos do sejam amenizados e de que haja vivência saudável em confinamento. “É preciso manter a tranquilidade para conversar e ajudá-los a compreender a parte da situação que lhes cabe saber, de acordo com a idade. Para os adolescentes, aproveitar os acontecimentos para promover uma discussão saudável sobre cidadania e torná-los protagonistas é uma boa opção, já que é na adolescência que constroem, a personalidade e a consciência político-ideológica”, aconselhou Gomes.

Faça coisas que gosta: leia, assista a séries, ouça música, escreva. Tente relaxar ao máximo quando não estiver trabalhando em casa.

Crie metas: tenha objetivos pequenos e grandes durante o isolamento como arrumar armários, aprender a cozinhar, fazer um curso online, mudar a cor da parede da sala etc.

Organize, arrume, limpe. Organização externa ajuda a organizar cérebro e mente.

Conecte-se com pessoas: fale ao telefone, use WhatsApp, converse por vídeo. Marque de almoçar junto com os amigos, tomar um café ou mesmo reunir-se em torno de um happy hour virtual. Comunique-se e tente falar de outros assuntos que não somente a situação atual. Você vai se surpreender como é possível fazer muitas coisas online.

Pratique a gratidão: Procure o lado cheio do copo e agradeça. Liste motivos e compartilhe com quem está ao seu redor.

*Flavio Wittlin, (gerente de saúde do Sesc, médico e especialista em educação em saúde)

Entre Nós: A população em geral deve ou não usar máscaras para sair de casa?

Flávio Wittlin: Primeiro, vamos diferenciar máscaras cirúrgicas e N95 de máscaras comuns, feitas de pano, TNT ou material similar de uso geral.

No mundo ideal, todos deveriam usar máscaras cirúrgicas, como o que já acontecia, por exemplo, no Japão antes mesmo da crise Covid-19. Lá, o acesso a esse recurso é fácil e abundante, o que faz com que as pessoas consigam manter esse cuidado. O Japão tem apresentado, comparativamente a outros países, baixas taxas de infecção pelo SARS-CoV-2. Tem se especulado − afinal, ainda não há estudos definitivos −, que o uso das máscaras de forma corriqueira entre os japoneses é um dos responsáveis pela baixa transmissão. Outro seria o hábito cultural nipônico em cumprimentar sem dar as mãos e beijos faciais.

Já em países como o Brasil, carente de recursos, o uso de máscaras cirúrgicas ou de proteção superior (N95) deve permanecer concentrado nos profissionais de saúde e nos pacientes com sintomas suspeitos ou confirmados de Covid-19 que adentram as unidades de saúde.

A utilização das máscaras comuns (de pano, TNT ou materiais similares) tem sido recomendada por autoridades de saúde à população, como forma de conter ainda mais a disseminação do vírus. Essas máscaras ajudam a bloquear a secreção da tosse e do espirro, assim como das gotículas da fala, que transmitem o coronavírus de um paciente com Covid-19 assintomática ou com sintomas leves para as demais pessoas. Em outras palavras, quando eu uso a máscara eu te protejo; quando tu usas tu me proteges.

É preciso ter atenção ao manuseio das máscaras comuns que, depois de colocadas à frente do nariz e boca, só devem ser tocadas quando o indivíduo for retirá-las para higienização. Ou seja, nada de tocar na máscara quando ainda estiver em uso.

Importante salientar máscara nenhuma substitui o isolamento social, a distância física e a lavagem frequente das mãos. Essas, sim, são as medidas mais efetivas, capazes de conter ou mitigar o contágio.

EN: Idosos e grupos de risco: vacinar-se contra a Influenza e H1N1 ou não nesse período?

FW: Sem dúvida alguma, pessoas com 60 anos ou mais devem atender a esse chamamento, quebrando momentaneamente o isolamento. Alguns cuidados devem ser tomados na hora de ir ao posto de vacinação. Na fila, é preciso manter a distância de 2 metros entre os enfileirados. Já os profissionais que aplicarão a vacina precisam usar máscara e aplicar a vacina em ambiente aberto. A propósito, estamos disponibilizando vacinação aos colaboradores do Sesc, Senac e Fecomércio que estão dentro desta faixa etária, como ação estendida de saúde pública. A iniciativa seguirá para o interior, nas cidades onde a Fecomércio atua. Fique atento e previna-se!

EN: Como fica a automedicação em tempos de Covid-19 e remédios que prometem a cura ou imunização, mas não possuem comprovação científica?

FW: A propaganda em relação a “santos” remédios é perigosa. A hidroxicloroquina, por exemplo, ainda é − só e somente só − uma droga experimental no combate às formas graves da doença (Covid-19). Anda meio sumida das prateleiras das farmácias, podendo deixar um sinistro rastro duplo: de um lado, efeitos colaterais terríveis nos “ansiosos” (cegueira, insuficiência renal, arritmias cardíacas etc.). De outro, doentes necessitados da droga, que, sem acesso a ela, certamente descompensarão suas enfermidades crônicas (lúpus, artrite reumatoide, Síndrome de Sjögren etc.) e acabarão pressionando ainda mais a busca por leitos hospitalares.

A Vitamina D, propagandeada como possível imunoprotetor contra o SARS-CoV-2, também não possui dados científicos que comprovem a efetividade.

EN: Poderia comentar as vantagens e desvantagens do isolamento vertical e isolamento horizontal?

FW: De acordo com autoridades de saúde e a Organização Mundial de Saúde (OMS), o isolamento vertical ou seletiva (que obriga os mais velhos a ficarem em casa e permite que os mais novos circulem – e voltem no final do dia para o mesmo domicílio onde todos convivem) é frágil no que diz respeito à contenção efetiva de transmissão do vírus.

Nunca é demais lembrar que os indivíduos mais jovens podem ser hospedeiros assintomáticos ou levemente sintomáticos do novo coronavírus, e o contato com pessoas mais velhas representa um perigo grande e real de contágio.

De fato, a faixa etária que vai dos 60 anos para cima, principalmente com fatores de risco associados (doença cardíaca, diabetes, asma, tratamento quimioterápico para câncer, obesidade etc.) é a mais atingida. Mas, faixas de idade inferior, incluindo crianças, não têm sido poupadas, às vezes até de forma letal. Por isso, seguindo a recomendação da OMS, o isolamento deve ser horizontal e se estender a todos, independentemente da idade.

Veja a primeira parte do bate-papo aqui!