Com o aumento da expectativa de vida, ocasionado por maior acesso a serviços e tratamentos de saúde, a população idosa vive mais e melhor. O crescente número de pessoas acima dos 60 anos que seguem atuantes no mercado formal e informal de trabalho também contribui para que esses indivíduos levem uma vida ainda mais ativa e independente… e muito longe do estereótipo do idoso que ficava em casa, contemplando um mundo que acontece sem a sua participação.

“Para os idosos de hoje, não basta continuar a viver como um mero expectador. Para essa parcela da população, o ‘como viver’ ganhou grande importância. Hoje, os idosos estão inseridos nos contextos familiares ou de trabalho de forma ativa, participando dessas dinâmicas, ressignificando dia após dia o perfil das pessoas acima de 60 anos na sociedade”, explicou Camila Picharillo, enfermeira e instrutora dos cursos para a formação de profissionais técnicos de enfermagem e cuidadores de idosos do Senac RJ.

De acordo com pesquisa do IBGE de 2018, no Brasil, os idosos representam pouco mais de 13% da população do país. No Brasil, a expectativa de vida subiu 25,4 anos entre a década de 1960 até o ano de 2010.

Hoje, a expectativa média de vida do brasileiro é de 80 anos para as mulheres e 73 para os homens (dados do IBGE). Os trabalhadores mais idosos correspondem ao grupo com menor participação no total da ocupação no país, mas esse porcentual vem crescendo ao longo do tempo, passando de 6,3% em 2012 para 7,8 em 2018 (dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea).

Diante desse cenário, a mesma proporção, como não poderia deixar de ser, o perfil dos avós ganhou também novos contornos. Idosos mais longevos, ativos e felizes se tornam vovôs e vovós que querem curtir a vida ainda mais ao lado dos netos, cada vez mais próximos de suas realidades, dando amor, carinho, ensinando e aprendendo lições com as gerações mais novas.

 

Aproveitando o Dia dos Avós, celebrado no Brasil em 26 de julho, o Entre Nós faz uma homenagem especial aos vovôs e às vovós, abordando o novo perfil de idosos mais ativos, independentes e conectados… Porém, ainda protagonistas das lembranças mais queridas da infância de grande parte das pessoas. Afinal, algumas coisas nunca mudam.

Além de estarem no mercado de trabalho, os idosos estão mais conectados, usufruindo das vantagens da tecnologia, tanto para incrementar a vida social quanto para acompanhar e ter contato com familiares e netos. “A ampliação da conexão do idoso é uma tendência ascendente. Há uma mudança no perfil dos idosos, eles agora enxergam na tecnologia um modo de vida antes inexplorado. O uso de aplicativos de conversa, como o WhatsApp, já é considerado normalidade. Claro que há uma contradição nessa condição de ações virtuais, existe ainda um grande grupo excluído desse processo, tanto por falta de conectividade, habilidade ou por falta de instrumentos e aparelhos. No entanto, a cada dia, os idosos estão mais conectados e sedentos por esse conhecimento, abandonando os estereótipos dos avós avessos aos celulares e computadores”, comentou Thaís Castro, analista da Gerência de Assistência e responsável pelo Trabalho Social com Idosos (TSI) no Sesc RJ.

Lilia e os netos

Maria Lilia tem 72 anos e é gerente da Unidade Santa Luzia do Sesc RJ. Mas, cá para nós, o cargo que Lilia mais gosta de exercer na vida é o de ser avó de Daniel, Ugo e Carolina.

Morando distante de todos os netos, (Daniel e Carolina moram em Paris, na França e Lucas em Barra Mansa, São Paulo) a solução para estar perto e matar as saudades sempre foi a tecnologia. “Falamos por WhatsApp, mandamos áudios e vídeos, eles que me ensinam a mexer. Todo sábado, fazemos um super encontro de família por chamada de vídeo que já se tornou tradição para nós”, disse Lilia.

Para ela, o papel dos avós sempre foi especial na criação dos netos e continua sendo, ainda que tenham um perfil diferente de antigamente, sejam mais ativos, sigam no mercado de trabalho e dividam o apreço pela tecnologia para ajudar na comunicação. “Os filhos nos ensinam a ser responsáveis. Já os netos, nos ensinam o afeto mais leve, doce. Eles sempre serão aquelas crianças que ajudamos a embalar, a cuidar. Acho o papel dessas figuras fundamental na criação de lembranças das crianças, como uma referência de memória da família e, claro, lugar de aconchego”, comentou Lilia, a quem os netos sempre buscam para saber de histórias antigas, dos tempos passados ou da infância e juventude dos pais.

Se, por um lado, são os pequenos a ensinar Lilia a usar aplicativos e outras tecnologias, por outro, é ela quem os conduz em segredos culinários. “Quando eles vêm para cá, gostam de visitar a minha cozinha, alguns de preparar pratos juntos. É uma delícia! Ser avó é fazer parte de um mundo maravilhoso”, disse Lilia, que ainda é da opinião de que não são apenas os avós a mimar os netos, o contrário também acontece. “Eu sinto que os netos são mais pacientes conosco até do que os filhos, são muito afetuosos e atentos”, finalizou.

Lourival e os netos

Lourival, Gerente de Orçamento do Sesc RJ, foi avô pela primeira vez aos 43 anos, idade em que foi pai também de seu caçula, o temporão Lucas, de 21 anos. Hoje, com 62, ele é o avô ativo e presente de seus cinco netos: Maria Clara, 7, João Guilherme, 10, Maria Fernanda, 12, Carlos, 16, e Maria Eduarda, 21, prole de Ana Paula e Luis Fernando, filhos mais velhos de Lourival. Sendo pai e avô em diferentes idades, Lourival tem o privilégio de experimentar a vivência simultânea das duas funções, o que garante uma perspectiva apurada sobre ser pai e avô:

— Ser pai é maravilhoso. Mas é diferente a forma como conduzimos nossas vivências com os netos. Como não temos responsabilidades parentais, a gente acaba criando um universo peculiar com os netos, digamos, mais “desobrigados”. Ser avô é indescritível, revigorante. É bom estar ao lado deles e poder assistir às descobertas, fazer parte das alegrias – disse Lourival, que se assume um exemplar típico de “vovô coruja”, salientando que “suas crianças são inteligentes e lindas!”.

Com a neta Clara

Mesmo antes do isolamento social imposto pela Covid-19, Lourival e os netos já tinham o hábito de usar aplicativos de mensagens e vídeo conferência para conversar. “Ainda bem que temos a tecnologia. Não tem hora, vira e mexe eles me mandam foto, ligam para pedir as coisas, fazem vídeos, gravam áudios. É uma delícia, porque, desse jeito, a gente alivia um pouco a saudade”, disse.

Maria Eduarda e João Guilherme

Apesar de ter uma relação com menos obrigações relacionadas à disciplina e à educação, o avô conta que não se isenta da criação dos netos. “Oriento, busco conversar sobre valores, respeito com o próximo, cuidados com a vida, porém, como avô, de uma posição que complementa a educação dos pais, sempre com aquele afeto especial que só a gente sabe dar”, disse.

Para Lourival, a tarefa de ser avô não diz respeito apenas e diretamente ao relacionamento com as crianças. Apoiar os próprios filhos, ouvir e aconselhar é parte fundamental da tarefa. “Em muitos momentos, converso com meus filhos, divido a minha experiência sobre a criação, os desafios de educar”, complementou o gerente.

Dos próprios avós, Lourival guarda lembranças carinhosas, que o deixam emocionado. Isso prova que, pode o tempo passar, pode a tecnologia avançar, os hábitos mudarem, mas a doçura da relação entre avós e netos nunca muda!

Veja a matéria Cotidiano de junho.